Sobre redes e sustentabilidade (2)
Às vezes, por causa de pesquisas atuais, revisito o que escrevi no passado. Esta semana, cobrindo o 3º Microgerar – seminário de microgeração e inclusão social, me deparei com um texto opinativo publicado no dia 12 de novembro de 2009 quando quase metade do país ficou às escuras por horas seguindo falhas técnicas no sistema de transmissão. Concluí que tinha chegado a hora de descentralizar a geração de eletricidade seguindo o exemplo das redes digitais.
Por ser ainda tão atual ao tema, reproduzo aqui o que escrevi há quase três anos:
Apagão: chegou a hora das alternativas mais sustentáveis
O debate sobre o blecaute de 10 de novembro está fazendo mais parte do problema do que da solução. Na grande mídia o assunto são os virtuais culpados. O governo, sem muitos detalhes, diz que foram fenômenos meteorológicos. Sua falta de objetividade abre espaço para que especialistas questionem tecnicamente essa versão e que aventureiros busquem politizar forçadamente o caso ou apresentem teorias sensacionais que versam sobre ação de hackers ou racionamento surpresa.
O fato é que há uma razão clara para o blecaute: a obsolescência de nosso sistema energético, do qual 98% funciona interligado e dependente de grandes usinas geradoras, distantes dos centros de consumo. A solução está em tornar o sistema descentralizado e inteligente. E, antes disso, criar condições para que tenhamos um sistema moderno, mais seguro e limpo.
Afinal, com hidrelétricas cheias, não foi o cobertor curto da geração que causou a falha, mesmo porque houve uma redução no consumo ao longo de 2008 por causa de crise financeira mundial. O sistema elétrico brasileiro atende a todo o país e é considerado um dos mais robustos do mundo.
Entretanto, basta removermos Itaipu – que fornece cerca de 20% do total do sistema – para que enfrentemos um colapso.
A saída é a descentralização do poder de geração. Não coincidentemente, o atribui to da “descentralização de poder” tem se firmado como um traço fundamental da cultura do século 21 e é representado pela internet e suas redes sociais.
Quando, naquela terça-feira, milhares de cidades mergulharam no breu, o fluxo de informação sobre o apagão não cessou, mas continuou em tempo real, graças à inusitada, porém natural, parceria que se fez entre as atualíssimas mídias sociais online e seu antepassado sobrevivente, o rádio.
Alguns grandes sites jornalísticos locais ficaram fora do ar, mas o internacional Twitter funcionava. De forma inédita o jornalismo praticado pelos cidadãos informava as rádios que por sua vez também alimentavam a rede social com informações sobre o ocorrido. A plataforma para ambas as mídias foi o celular com acesso à internet e rádio AM/FM – ainda que muito radinho tenha sido recarregado com pilhas para a tarefa. Se não formasse um sistema descentralizado, nada disso teria ocorrido.
O emergente modelo de sistema de geração elétrica – que é preconizado pelos especialistas do setor como “o futuro” impreterível – pode ser construído da mesma maneira. A ideia é constituí-lo de uma miríade de microgeradores independentes, porém interligados por um sistema inteligente de gestão da distribuição, que podem injetar eletricidade na rede.
Um dos defensores desse modelo é Cyro Boccuzzi, diretor da consultoria Ecoee e um dos principais articuladores do debate sobre smart grid (redes inteligentes) no Brasil.
“Hoje a tecnologia está evoluindo para redes inteligentes, que possibilitam a geração e o armazenamento de energia em pequenas quantidades em pontos próximos aos centros de consumo para uso local, mas que permitem ao pequeno gerador distribuir – e vender – o excesso na rede”, disse. “As redes inteligentes enxergam as perturbações nas redes antes que aconteçam, porém ainda é uma tecnologia cara.”
Uma rede dessas combina inteligência de comunicação e integração de equipamentos que permitem fluxo bidirecional de informação e eletricidade.
Se estivesse no lugar do atual, este sistema permitiria um gerenciamento mais detalhado da rede pelo Operador Nacional dos Sistema (ONS). E assim seria possível montar um sistema de microgeração distribuída.
O que é isto? É um modelo que permite que cada casa, edifício, fazenda ou fábrica possa gerar sua eletricidade para consumo próprio, de forma renovável e sem ter que comprar de uma concessionária de energia. Quando não consumisse toda a eletricidade gerada, o pequeno gerador poderia ‘vender’ o excesso para a rede.
Já temos algo que funciona assim no Estado de São Paulo. Há usinas sucroalcooleiras com sistemas de cogeração, no qual o vapor do processo industrial e o bagaço de cana são usados para gerar eletricidade para a própria usina. Essa energia muitas vezes sobra, permitindo à usina vendê-la no mercado.
Mas como fazer isso em escala pelo país afora?
Para Boccuzzi, existem resistências muito grandes para implantar este sistema, que já funciona na Europa e começa a se tornar realidade nos Estados Unidos e na China.
“Se as distribuidoras incentivarem que eu coloque meu próprio gerador no meu telhado não será um bom negócio para ela, ela está perdendo duas vezes, gastando dinheiro para me ajudar a fazer isso e perdendo receita”, disse o consultor. “Então a lógica de definição das tarifas também tem que ser adaptada, tem que ter um novo modelo econômico e regulatório por trás”.
Apesar da pouca receptividade, resistir às novidades em vez de aprender a se adaptar a elas já provou não ser bom negócio em outros setores da economia, como a indústria da comunicação ou do entretenimento, que vivem essa mudança de paradigma de forma irreversível e desafiadora.
Alguns deputados federais parecem que já captaram a ideia e encabeçaram uma lei que prevê exatamente isto: obriga as distribuidoras de energia a comprar energia de microgeração (com potência instalada até 50kW) partir de 2011.
O relator do Projeto de Lei 630/03, Fernando Ferro (PT-PE), defende que precisamos diversificar nossa matriz energética, olhando para fontes renováveis, principalmente eólica, solar e de biomassa.
“Quanto mais diversificada for nossa matriz elétrica, mais segura ela será”, disse ele à Revista Sustentabilidade.
A lei é extensa, com 39 artigos, e também prevê medidas de eficiência energética e a criação de um fundo para financiar pesquisa nestas áreas.
Enquanto os burocratas reúnem-se em Brasília para buscar uma explicação plausível para o que aconteceu na terça-feira (10/11) e a oposição tenta aproveitar eleitoralmente do fato, na coxia o governo federal jaz alguns planos. Entre eles, o de eficiência energética que nunca sai do papel, mas prevê alguns destes mecanismos que ajudariam a dar mais segurança ao sistema.
Boccuzzi, entretanto, avalia que o custo desse projeto talvez não seja tão alto e defende que o Brasil comece colocá-lo em prática o quanto antes. Segundo sua estimativa, os investimentos para montar uma rede inteligente ficariam próximos de R$ 30 bilhões, o que significaria R$500,00 para cada uma das 60 milhões de unidades consumidoras. Para ele, um esforço que vale a pena, pois geraria economias financeiras centenas de vezes maiores, além do retorno ambiental.
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Referência (ABNT):
Spatuzza A. Sobre redes e sustentabilidade (2), 27 mai. 2012. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/sobre-redes-e-sustentabilidade-2/>. Acesso em: 20 mai. 2013.



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