OPINIÃO – Proposta de Marina Silva e da Rede é mudar a cultura política, a partir da sustentabilidade
Não será fácil Marina Silva fazer eleitores e líderes de opinião entender a proposta da Rede Sustentabilidade. Não só pela ideia inovadora de fazer política, mas também pela complexidade inerente ao conceito de sustentabilidade.
São dois objetivos titânicos.
O primeiro, porque a nossa história é altamente antidemocrática. Carregamos uma cultura que não sabe lidar com naturalidade com a divergência de opinião na política, mesmo se entendemos a diversidade, uma marca brasileira.
Nos primeiros momentos da entrevista que Marina Silva concedeu à Roda Viva ontem (18/02/2013), faltou explicar como que os protagonismos de agentes fora da política ‘monopolizada’ pelos partidos poderia resultar em efetiva mudança. De cara, a sua proposta da Rede dar espaço para indivíduos representantes de movimentos ou mobilizações sociais para agir com independência da Rede após eleitos, suscita muitas perguntas e vai de encontro a ideia de fidelidade partidária e o medo generalizado do fisiologismo e de partidos de aluguel que se posicionam ao sabor dos ventos planaltianos e corporativos.
Do outro lado, a sustentabilidade é por si só um conceito complexo. Sequestrado, ora pelas grandes corporações, ora pelos políticos e ora pelo governo, ficará difícil a população em geral entender como isto guiaria propostas concretas de políticas públicas e uma reorganização do Estado.
Acredito que estes serão os principais desafios da Rede nos próximos meses, não para conseguir as 500 mil assinaturas, que acho que será fácil, mas para, no ano que vem, convencer eleitores, empresários e a sociedade em geral, que há algo novo sendo proposto.
PERGUNTAS
Há na Europa, cuja tradição democrática é mais enraizada, movimentos parecidos com a Rede, e que, com certeza, inspirou Marina Silva e seus parceiros na empreitada. Na Itália, por exemplo, o Movimento Cinque Estelle é totalmente organizado sem partidos, coloca candidatos que, a todo momento consultam suas ‘bases’ para votar. Este ‘parlamentar’, não político profissional. Não tem cara, não tem personalismo, é um mero agente de aglutinação em torno de assuntos específicos.
A Rede propõe algo assim? O Brasil conseguirá entender a independência de um agente da sigla que carrega? E como se formariam apoios com outros 30 partidos nos parlamentos se nem a própria Rede garante apoio por fidelidade partidária?
Poderá a Rede mostrar o caminho para decrescimento econômico, o anticonsumismo, ecologismo e a democracia direta e liberdade digital, que culminariam numa sociedade e organização econômica mais verde e menos perdulária?
São perguntas que terão que responder e que só poderão responder na prática.
REAFIRMAÇÃO
Marina Silva mostrou na entrevista não só a tranquilidade de uma política experiente acostumada com o debate, mas também mostrou conhecimento e convicção quando a questão é sustentabilidade, reafirmando seus credenciais como militante ambiental e social histórica.
Nós, que trabalhamos o tema no dia a dia, sabemos o quanto é complexo introduzir o prisma de sustentabilidade para abordar as questões mundanas, pois é uma abordagem transversal. Sustentabilidade requer um pensamento complexo e reticular e, como no efeito borboleta, ao buscar uma resposta, sempre surgem outras perguntas.
Uma saída, claramente exposta na resposta que deu durante a entrevista sobre licenciamento, é a saída técnica. Ao explicar o licenciamento de Jirau e Santo Antônio, Marina Silva ilustrou com a questão dos bagres cujo ciclo de vida seria atrapalhado pela geração de sedimentos. A solução dada quando era Ministra do Meio Ambiente, foi técnica.
Até aí tudo bem, mas as opções são políticas. Ou seja, para apoiar-se na técnica é preciso politicamente levar em conta os efeitos disto no custo da obra, na resistência dos empreiteiros (também técnicos), no anseio de desenvolvimento econômico local para garantir a presentação do meio ambiente e da diversidade social e biológica.
Bagres não falam, mas aplicando a sustentabilidade a políticas públicas que afetam diretamente o cotidiano da pessoas – como educação, transporte, saúde, segurança, religião, lazer, cultura etc – , o alinhamento e o convencimento não são fáceis. Cito apenas algumas controvérsias constantes na política brasileira que são a cotas nas universidades, o vale cultura e o bolsa família. Não há consenso entre os técnicos, e muito menos entre os eleitores.
A implementação de ações são opções políticas que envolvem sempre a busca de consenso e cujo debate técnico é usado para alicerçar as decisões.
É por isso que sustentabilidade e redes são conceitos que se aliam. A complexidade do mundo moderno requer respostas ainda mais complexas e só a possibilidade uma rede digital e interativa permite acomodar a diversidade opinião. Isto está acontecendo. Mas, ainda falta o elo final que seria transformar a visão em ação de porte.
URGÊNCIAS
Marina Silva mostrou-se serena e preparada para fazer este debate.
Mas enfrentamos hoje urgência para resolver as várias crises ambiental, ética, política e econômica.
A Rede pode não ter candidato ou não ter sucesso em 2014, apesar do legado de quase 20 milhões de votos que Marina Silva pessoalmente carrega.
As urgências que a população brasileira tem por soluções para os anos de exclusão e exploração estão, em parte, sendo resolvidas pelas diretrizes dadas pelos governos Lula e Dilma, muitas vezes a custos altíssimos para o meio ambiente e até para a organização mais democrática da sociedade.
O mal estar generalizado com a política e com os partidos políticos é crescente, mas, mesmo assim, e na falta de uma oposição com propostas coerentes e visão de país, resultam nos altos índices de apoio à situação.
Poderá Marina Silva, num curto espaço de tempo, agregar em torno de si pessoas coerentes, empresas e movimentos sociais que entendam e tenham a vontade para oferecer as alternativas calcadas em um outro modo de fazer política para atender às urgências?
Sem negar seu passado no PT, sem queimar pontes, mas mostrando coragem para dar nome aos bois – como nas críticas aos licenciamentos politicamente motivados e ao código florestal – e convicção para fazer o debate, sem se apoiar em moralismos e absolutismos, Marina Silva mostrou-se preparada.
Enfim, Marina Silva é em si uma história de superação, mais um Silva que marca a nossa história política.
O imaginário popular de um país mais justo e um desenvolvimento mais equânime está aí para ser capturado por ela, mas precisamos ver se ela poderá agregar em torno de si outros políticos, empresários e atores sociais com a imaginação necessária para responder às complexas perguntas com a urgência que a população brasileira necessita.
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Referência (ABNT):
Spatuzza A. OPINIÃO – Proposta de Marina Silva e da Rede é mudar a cultura política, a partir da sustentabilidade, 19 fev. 2013. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/opiniao-proposta-de-marina-silva-e-da-rede-e-mudar-a-cultura-politica-a-partir-da-sustentabilidade/>. Acesso em: 24 mai. 2013.



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