DAS REDES – Presidente do CNPq: problema de acesso à Universidade não é de vagas, é de candidatos
Por Thais Cardoso
O presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Glaucius Oliva, realizou no dia 29 de junho palestra para alunos, professores e pesquisadores no Auditório Sérgio Mascarenhas, no Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP. Oliva traçou um histórico da pesquisa científica brasileira a partir da criação de órgãos como o CNPq e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
Segundo ele, na década de 1950, quando as duas instituições foram criadas, o perfil do País era de uma população predominantemente rural, poucos ambientes de pesquisa e poucos cientistas que se dedicavam em tempo integral à pesquisa. A cultura de inovação praticamente inexistia e o atraso na prática científica era muito grande.
Sessenta anos depois, o crescimento da área de Ciência e Tecnologia é bastante animador. Oliva mostrou, por meio de gráficos, que a produção científica brasileira corresponde hoje a 3% da produção científica mundial e 55% de toda a produção científica da América Latina. “Todos os grupos de pesquisa no Brasil, a cada dois anos, passam por um recenseamento. Em 1993, nós tínhamos 4.400 grupos de pesquisa. No último Censo, em 2010, eram 27.523. Em 2012, no segundo semestre, vamos fazer outro Censo e a gente deve passar de 30 mil grupos de pesquisa”, afirma ele.
De acordo com o presidente do CNPq, esse crescimento tem acontecido com descentralização. A Região Sudeste, que em 1993 respondia por 73% dos grupos de pesquisa, embora tenha obtido grande crescimento na área, hoje representa 47% desses grupos. A Região Nordeste registra a maior taxa de crescimento entre os grupos de pesquisa e a Região Norte, que em 1993 possuía apenas 70 grupos de pesquisa, hoje registra quase 1.500.
O número de Currículos Lattes em todo o Brasil atualmente é de mais de 2,6 milhões e 466 mil deles possuem mestrado ou doutorado. “Um milhão e seiscentos mil deles possuem pelo menos uma publicação de ciência e tecnologia ou artística e cultural. Temos 411 mil currículos com pelo menos uma publicação em revista indexada e, com patente, cerca de 9 mil”, explica Oliva. Segundo ele, a Base Lattes também tem sido utilizada por empresas para a busca de profissionais qualificados e projetos, além de ser referência para outros países, que procuram o CNPq para montar uma base semelhante.
Para o presidente do CNPq, o grande motor da produção científica nacional é a pós-graduação. O País possui 1.619 cursos de doutorado e 2.761 de mestrado, além de oferecer opções mais focadas no mercado, como o mestrado profissional. “Hoje a gente forma cerca de 40 mil mestres e 12 mil doutores todos os anos no Brasil. Isso se dá pela expansão no nosso sistema de pós-graduação, exemplar em relação a outros países do mundo”, diz Oliva.
Embora o País tenha muito a comemorar, ainda existem grandes desafios a serem superados. Segundo Oliva, há mesorregiões que não possuem sequer um curso de pós-graduação. “A Região Norte tem 14% da população brasileira, mas tem metade dos doutores da Universidade de São Paulo, ou seja, pouco mais de 2.500, 3 mil doutores atuando na Região Norte inteira”, afirma.
Outro grande problema apontado por Oliva está na educação básica, que cresce em quantidade, porém não em qualidade, e no Ensino Médio, faixa em que há uma queda brutal de jovens que só estudam. “Hoje, o problema de não existir maior acesso ao Ensino Superior no Brasil não é de vagas, essencialmente é de candidatos. O número de jovens interessados e qualificados para fazer Ensino Superior já não comporta o número de vagas no País, incluindo as vagas de universidades privadas. Nessas universidades, você preenche um pouco mais de 50% das vagas, e não é por falta dos recursos do ProUni, é por falta de candidato e por muita evasão. Isso acontece, em grande parte, pelos problemas de qualidade do ensino básico brasileiro”, explica ele.
Em contrapartida, com a expansão de universidades públicas e privadas, que contratam em grande maioria professores doutores, de 2005 a 2010 praticamente dobrou o número de professores doutores de tempo integral nas universidades públicas. “São eles que estão potencialmente qualificados para fazer pesquisa no Brasil e que demandam recursos de agências de fomento estaduais e federais para poder se inserir no sistema nacional de produção”, diz Oliva.
Entre os principais programas mantidos pelo CNPq, o presidente da instituição citou os Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia (INCTs). Segundo ele, atualmente são 122 INCTs em áreas como biotecnologia, engenharia, saúde, ciências sociais, informação e comunicação, Amazônia, agronegócio, biodiversidade e meio ambiente. “Esse programa reúne os principais pesquisadores nesses temas em redes, com uma sede, outros grupos associados, recursos sustentados por vários anos, num modelo em que se exige formação, pesquisa na fronteira do conhecimento, transferência de tecnologia para o setor produtivo e educação, divulgação e popularização da Ciência como parte integral de suas atividades”, explica.
Oliva também mencionou o Ciência Sem Fronteiras, que aumentou o número de bolsas para pesquisadores brasileiros em outros países. “É um programa do governo que tem como objetivo oferecer 100 mil bolsas no exterior para que nossos mais talentosos estudantes de graduação, pós-graduação e pesquisadores possam realizar estágios nas melhores universidades do mundo”.
O presidente do CNPq também chamou a atenção para os baixos índices de inovação existente no País e justificou a importância do programa Ciência Sem Fronteiras nesse ponto. “Inovação vai acontecer no ambiente empresarial essencialmente e não nas universidades somente. Nós temos que colocar nossos jovens em um ambiente onde essa relação com a inovação já seja comum. Não que a gente não seja capaz de formar esses estudantes no Brasil, mas nós queremos formá-los com uma cabeça diferente, não só de fazer uma carreira acadêmica, mas também de fazer uma carreira empresarial no que diz respeito à inovação”.
Segundo Oliva, também há uma falta de protagonismo das próprias empresas em termos de inovação. Ele comparou gráficos de investimento do PIB em inovação do Brasil e do Japão e destacou que, embora o investimento seja quase o mesmo – cerca de 0,5% – a diferença está na quantidade investida pelas empresas, que é muito maior nos países desenvolvidos.
Apesar disso, o presidente do CNPq destacou que já há bons exemplos de investimentos em inovação por parte das empresas brasileiras e citou três exemplos: a Petrobrás, que passou a ser destaque na produção mundial de petróleo e gás depois de montar um centro de pesquisa e desenvolvimento dentro da UFRJ; a Embraer, terceira maior indústria aeronáutica do mundo, que surgiu após a fundação do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA); e a Embrapa, depois de cuja criação o Brasil se transformou no principal celeiro de alimentos do mundo.
Por fim, Oliva falou de dois grandes desafios que a ciência e a tecnologia brasileiras possuem hoje: a consolidação da liderança do País na economia do conhecimento natural e o avanço em direção à economia do conhecimento. “Nós temos uma oportunidade única de não ter que repetir a história dos países desenvolvidos, que foi uma história de desenvolvimento associada à destruição do meio ambiente. Temos a chance que a ciência e a tecnologia nos oferecem hoje, que é tentar fazer essa transição para uma economia desenvolvida, porém, de baixo carbono e sustentável”, afirma.
Matéria originalmente publicada no site da Agência Ciência Web, todos os direitos reservados.
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Referência (ABNT):
. DAS REDES – Presidente do CNPq: problema de acesso à Universidade não é de vagas, é de candidatos, 15 ago. 2012. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/das-redes-presidente-da-cnpq-problema-de-acesso-a-universidade-nao-e-de-vagas-e-de-candidatos/>. Acesso em: 20 mai. 2013.



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