Cidade de São Paulo espera aprovar política de proteção ao clima ano que vem
O projeto deve ser aprovado pela câmara municipal ano que vem.
Além de um diagnóstico, o projeto prevê estímulo ao transporte sem carro e edificações mais eficientes e sustentáveis.
Mas plano também deve dizer como enfrentar as emergências que vão surgir no município por causa das mudanças climáticas.
A Revista Sustentabilidade entrevistou Fábio Feldman, secretário executivo do fórum paulista de mudanças climáticas e biodiversidade, para discutir os pontos principais da política.
Revista Sustentabilidade: O que quer dizer uma política municipal de proteção ao clima?
Feldman: Na municipal é definir o que a cidade de São Paulo vai fazer para se engajar na luta contra o aquecimento global. Basicamente é um compromisso da sociedade paulistana de reconhecer o problema e saber que tem um papel a desempenhar para resolver o problema. Estamos definido instrumentos como inventários, periódicos ligados ao efeito estufa. Estamos definindo medidas no campo de transporte, no campo de energia, no campo de construção civil para simular aquelas medidas que contribuem para combater o efeito estufa.
Revista Sustentabilidade: Então o primeiro passo é fazer um diagnóstico?
Feldman: Sim, diagnóstico e também fazer um levantamento para elaborar um mapa que chamamos de “Mapa de Vulnerabiliade”. Diante do cenário do IPCC queremos saber o que pode acontecer com a cidade em termos de inundação, em termos de deslizamentos, de áreas críticas para tomar medidas no campo que chamamos de adaptação.
No campo da mitigação estamos estudando melhor eficiência energética e coisas como estas.
Revista Sustentabilidade: Em que estágio que está o plano?
Feldman: Na verdade é uma encomenda da secretaria do Verde e meio ambiente à FGV. A primeira versão já foi finalizada e está em consulta pública.
Revista Sustentabilidade: E quando deve ser finalizado o processo?
Feldman: Daqui a 60 dias deve ser concluída a fase de discussões , depois deve ser feita uma versão final e o prefeito vai encaminhar o projeto à Câmara municipal e nos próximos seis meses deve ser aprovado.
Revista Sustentabilidade: Quais são os pontos chaves desta política?
Feldman: Na mitigação, o plano combate a emissão de gases de efeito estufa. Temos propostas de medidas para estimular transporte não motorizado como bicicletas através de ciclovias. No setor de energia, estimular energia renovável. Na construção civil, conservação de energia, telhados verdes. Mas no campo da adaptação, a idéia é tomar medidas para preparar a cidade para enfrentar os problemas de aquecimento global.
Recista Sustentabilidade: O senhor tem confiança que este plano vai ser implementado?
Feldman: O problema de aquecimento global tem hoje uma relevância tão grande, que eu acho que as políticas não são do governante. A decisão política se torna uma política da sociedade. Acho que chegamos a um patamar de consciência que é um caminho sem volta. Acho que daqui em diante, durante os próximos dez anos, radicalmente, teremos uma exigência da sociedade de cumprimento de certas demandas. E a demanda em relação ao aquecimento global estará cada vez mais presente.
Revista Sustentabildiade: E como está o processo da política de proteção do clima em nível estadual?
Feldman: Os pontos são praticamente os mesmos, mas a diferença é que o governo do estado de São Paulo quer incorporar as questões das regiões metropolitanas, a questão das florestas, porque são Paulo tem muitas florestas mas precisa estimular novas florestas e também será feito um levantamento de vulnerabilidade. [A informação que temos] mostra que a situação é muito séria.
Revista Sustentablidade: Como é feito o diagnóstico?
Feldman: Vamos fazer simulações para prever o que acontece se aumentar em dois graus Celsius, três graus etc. Vamos ver os impactos nos ciclos biológicos, na agricultura, nas grandes e pequenas cidades. A lei vai determinar o que se deve fazer. Na verdade, são processos muitos iniciais, no Brasil e no mundo. Existem poucos anos de trabalho. Mas queremos iniciar o processo [através destas políticas].
Revista Sustentabilidade: Então o senhor concorda com a Ministra do Meio Ambiente Marina Silva que será preciso treinar pessoas?
Feldman: Sim. Existe aí um desafio de capacitação da sociedade em geral. Capacitação em termos da comunidade científica, capacitação em termos de incorporação das questões climáticas nos processos decisórios, capacitação do próprio setor empresarial. O desafio é grande porque desde o primeiro relatório do IPCC já se passaram 17 anos de conhecimento consensualizado. E nestes 17 anos o Brasil avançou, mas diante da urgência do problema, temos um caminho enorme pela frente.
Revista Sustentabilidade: Qual é o papel do desenvolvimento tecnológico neste cenário?
Feldman: Acho que temos que encontrar alternativas e produtos atuais. Equipamentos mais eficientes, indicadores de metas das questões ambientais.
Revista Sustentabilidade: Mas nós temos esta tecnologia, é uma questão de aplicação apenas?
Feldman: Em parte nós temos, mas não é suficiente porque os desafios são muito maiores. Mas o Brasil tem um patamar tecnológico razoável. Acho que a fase atual não é de total falta de tecnologia, acho que temos que conhecer e disponibilizar o que já tem por aí e estimular seu uso.
Revista Sustentablidade: O senhor disse que o Brasil pode ter um papel importante em liderar o mundo no combate ao aquecimento global. De onde vem este otimismo em relação ao Brasil?
Feldman: O Brasil já tem uma tradição de liderança na questão de aquecimento global. Na convenção de mudanças climáticas, no protocolo de Kyoto, o mecanismo de desenvolvimento limpo é originário de uma iniciativa brasileira. É importante dizer que existem alguns países chaves além dos países desenvolvidos. China, Índia, em menor medida a África do Sul e eu acho que o Brasil tem um espaço enorme de liderança. Para o Brasil existe uma expectativa enorme para exercer esta liderança.
Revista Sustentabilidade: Mesmo apesar dos problemas urbanos enormes que o país enfrenta?
Feldman: Existe um protagonismo mundial enorme do Brasil sobre a questão [internacionalmente]. Mas internamente estamos começando a agir agora. Mas temos capacidade de um bom desempenho, inclusive pela urgência do tema. Do ponto de vista da economia brasileira é importante saber quais serão os impactos, mesmo porque o Brasil é um dos maiores exportadores de commodities do mundo. Por outro lado há um comprometimento da matriz energética do sudeste e então vai ter que mudar.
Revista Sustentabilidade: O senhor elencou os governos, a sociedade civil organizada, o empresariado, as ONGs e a academia como responsáveis para oferecer um portifólio de soluções. Quais destes elencados podem liderar este processo?
Feldman: Acho que basicamente hoje são as ONGs, o empresariado e a mídia. O setor empresarial é importante porque o quanto antes ele incorporar, melhor será para enfrentar a competição. E quem não incorporar estas questões vai estar em desvantagem competitiva.
Revista Sustentabilidade: Como membro do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável CBCS, o que acha que será o papel do setor no combate ao aquecimento global?
Feldman: Ela certamente tem um norme impacto ambiental, na extração das matérias primas, no processo de apropriação dos espaços urbanos e na própria operação dos bens e edifícios público, residênciais e comerciais, portanto eu vejo com muito otimismo o engajamento da construção civil e a possibilidade de que seja um setor com capacidade de exemplaridade em relação aos outro setores.
Referência (ABNT):
R. Cidade de São Paulo espera aprovar política de proteção ao clima ano que vem, 3 ago. 2009. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/cidade-de-sao-paulo-espera-aprovar-politica-de-protecao-ao-clima-ano-que-vem/>. Acesso em: 22 mai. 2013.



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