A corrida maluca para o verde se acelera
A lista é extensa, mas, infelizmente, constatamos que a grande maioria ainda é “maquiagem verde”. Sinais de que a corrida maluca para o verde – isto é, distorções dos conceitos para se fazer parecer sustentável sem ser – cresce a cada dia.
Recente pesquisa sobre tendências para o consumo consciente, realizada pelo Monitor de Responsabilidade Social Corporativa 2009, publicada na edição deste mês da revista Ideia Socioambiental,indica que apenas 8,2% do consumidores se caracterizam como retaliadores, ou seja, deixam de comprar produtos e ainda criticam a empresa para terceiros, disseminando informações negativas.
Há mais um argumento para a empresa não mudar e acelerar ainda mais a corrida maluca para o verde. No Brasil, ainda não existem números sobre maquiagem verde, mas na Austrália, recente levantamento, identificou que 98% dos produtos oferecidos como verde são “maquiados”.
Temos a população do planeta mais preocupada com as mudanças climáticas e disposta a até pagar mais caro por produtos e serviços que possam contribuir para um mundo melhor. Algumas empresas sabendo disso têm exagerado em sua comunicação e cometido erros que poderiam ser
classificados como propaganda enganosa ou mesmo falsidade ideológica.
Esses comportamentos têm causado mais ceticismo e desconfiança no consumidor e dificultado o posicionamento de ações consistentes em sustentabilidade. Por falta de opção e informação correta, os consumidores brasileiros continuam levando para casa produtos que podem prejudicar a saíde de suas famílias propagandeados como “mais sustentáveis” porque têm rótulos e embalagens recicladas.
A falta de uma legislação adequada que proteja o interesse do consumidor tem feito com que seja possível se anunciar pão-de-queijo que não contém queijo, produtos como ecológicos que agridem a natureza e se estimular o uso de água sanitária como mais sustentável só porque sua embalagem é feita de material reciclado.
É interessante perceber que existem empresas multinacionais fazendo isso em nosso País, mas que não se atreveriam a fazê-lo nos EUA onde poderiam estar sujeitas a multas milionárias pela Federal Trade Commission.
Newton Figueiredo é fundador e presidente do Grupo SustentaX, que desenvolve, de forma integrada, o conceito de sustentabilidade ajudando as corporações a terem seus negócios mais competitivos e sustentáveis, identificando para os consumidores produtos e serviços sustentáveis e desenvolvendo projetos de sustentabilidade para empreendimentos imobiliários.
Férias, Filas, Praia e Esgoto por Ricardo Rose*
Durante as férias de verão, milhões de turistas se deslocam para o litoral de São Paulo, esperando ter alguns dias de lazer e poder esquecer dos congestionamentos, dos juros do cartão, dos assaltos e das frequentes enchentes paulistanas. Aliás, diante do imobilismo das autoridades, alguns já apelidaram São Paulo de “a Veneza estropiada do planalto”. Mas o veranista é antes de tudo um forte e não desiste nunca. Carro abarrotado de coisas – já que o comércio do litoral exagera nos preços durante as férias – e oito horas de congestionamento depois, o estafado viajante chega ao seu destino final: a praia. Litoral norte, Baixada Santista ou litoral sul; são cerca de 500 quilômetros de mar e quatorze cidades, de Cananéia até Ubatuba.
Tudo corre às mil maravilhas, salvo a falta de água no Ano Novo e o congestionamento na cidade. Até que o filho, a filha, o cunhado e os vizinhos começam a passar mal: diarréia, vômitos e febre. Passa-se uma tarde, uma noite e na manhã seguinte o mal estar continua. No Pronto-Socorro Municipal, sujo, desorganizado e precário, o remédio já havia acabado; na farmácia apenas algumas caixas. O pior é que ninguém consegue identificar a causa da virose ou infecção. Na dúvida, sem assistência correta, a solução é voltar pra São Paulo e utilizar o convênio – que também não é bom, mas que remédio…
Fatos como estes ocorreram com milhares de pessoas que planejavam passar suas férias no litoral. As causas da epidemia de diarréia e vômitos ainda não foram encontradas. No entanto, a agência ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), anunciou que fará um estudo sobre os microorganismos que vivem nas águas das praias, tentando detectar se existe contaminação com esgotos domésticos. Neste ambiente pode-se contrair cerca de 250 doenças transmitidas por água e alimentos, causadas por vírus, bactérias, parasitas ou toxinas.
Vale lembrar que os índices de tratamento de esgoto nas cidades do litoral paulista ainda são muito baixos. Já antes do início das férias, uma em cada três praias da Baixada Santista e do litoral norte foi considerada imprópria para o banho pela CETESB. A enorme afluência de turistas certamente piorou ainda mais esta situação. O fato, portanto, inspira atenção e requer mais informação para população local e para os veranistas. Segundo dados publicados pela imprensa, na Baixada Santista 2.900 litros por segundo (l/s) de esgotos vão para o meio ambiente (lençol freático, rios e mar) e apenas 1.078 l/s são coletados. No litoral norte a proporção também é ruim: 454 l/s não tratados, contra 252 l/s coletados. A SABESP, através de seu programa Onda Limpa, já vem investindo na ampliação da rede de esgoto da região e garante que até 2010 a coleta deverá alcançar 36%, chegando a 85% até 2015.
Este é apenas mais um capítulo da longa história do turismo predatório, que vitimou grande parte do litoral brasileiro deste a década de 1960. Administrações municipais incompetentes, sem comprometimento com a população que vive nas cidades, beneficiando apenas um reduzido grupo de cidadãos; as pequenas oligarquias que costumam dominar política e economicamente estas cidades e que diretamente se aproveitam deste turismo sazonal.
* Ricardo Rose é diretor de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasil-Alemanha. É formado em jornalismo, filosofia e pós graduando em gestão ambiental, atuando no setor de meio ambiente e energia desde 1992. Desenvolve projetos de transferência tecnológica nas áreas de meio ambiente, energias renováveis, mudanças climáticas e biocombustíveis. Coordenou o lançamento de diversas publicações sobre o setor e escreve regularmente para sites, jornais e revistas.
Referência nacional no manejo de florestas por João Francisco Salomão*
A ameaça representada pelas mudanças climáticas e a imperiosa necessidade de preservação e exploração racional dos recursos naturais exigem ampla disseminação de modelos bem-sucedidos. E um desses exemplos encontra-se nas ações da indústria madeireira do Acre, um referencial na decisiva prática do manejo florestal sustentável. No Estado, 80% das empresas de transformação da madeira trabalham absolutamente dentro desses parâmetros ecologicamente corretos. As principais já têm o chamado selo verde, uma garantia de respeito às normas ambientais e fator condicional para que os produtos sejam aceitos nos principais mercados internos e internacionais.
Assim, o Acre tem sido um verdadeiro modelo na Amazônia nessa importante área da madeira certificada. Graças a isso, o Estado tornou-se um dos principais exportadores do produto. Europa, Ásia e Estados Unidos são os principais compradores, embora a crise econômica mundial tenha reduzido os embarques a quase zero e causado prejuízos próximos a 30%. O mercado interno tem sido a alternativa enquanto os efeitos do crash financeiro não sejam mitigados no Exterior. O Estado de São Paulo, o maior consumidor da produção acriana, só aceita a entrada da madeiras certificadas.
O braço brasileiro da organização ambiental global WWF foi um dos parceiros na elaboração da Agenda do Setor Madeireiro Empresarial, elaborada pelo Sindusmad (Sindicato das Indústrias Madeireiras do Estado do Acre). O desenvolvimento do modelo teve todo o apoio da Fieac (Federação das Indústrias do Estado do Acre), à qual o sindicato é filiado. O papel da reconhecida ong internacional dá-se em duas frentes: a preparação das empresas para receber o selo verde; e a elaboração de estudos e pesquisas que garantam a viabilidade e a sustentabilidade da exploração.
A WWF Brasil também contribui para o avanço do tema no Estado, e é relevante a experiência relatada no livro “Manejo de Precisão em Florestas Tropicais: Modelo Digital de Exploração Florestal”. A obra detalha as principais etapas do processo de planejamento florestal informatizado, tecnologia desenvolvida pela Embrapa. Como se vê, a indústria local está em muito boa companhia no imprescindível trabalho de harmonização da atividade econômica e da sustentabilidade.
É muito visível a posição destacada do Acre no tocante ao manejo florestal, considerando que o processo tem garantido a preservação. A cobertura florestal no Estado, de aproximadamente 90%, denota a importância e a atenção destinadas àquele processo. O modelo desenvolvido é de imensa importância, pois o setor florestal configura-se como a principal vocação econômica do Estado. O atendimento, por parte das empresas, dos preceitos legais para acesso à madeira é uma prática de excelência na interação entre natureza e atividade econômica.
Apoiar o setor de base florestal no seu fortalecimento e desenvolvimento tecnológico faz parte dos preceitos da Fieac. A entidade acredita ser possível alcançar uma produção industrial socialmente justa, politicamente correta, economicamente viável e ecologicamente sustentável. Tais referências são fundamentais ao Brasil para o sucesso em sua intransferível responsabilidade de preservar a Floresta Amazônica, cujos 7,6 milhões de quilômetros quadrados são os guardiões das melhores oportunidades da humanidade de vencer as mudanças climáticas e viabilizar a perpetuação da vida.
*João Francisco Salomão é o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Acre — FIEAC (salomao@fieac.org.br).
A importância do investimento ambiental integrado e sustentável por Carolina Cabral Murphy*
No Brasil, várias empresas e seus investidores estão perdendo oportunidades de mensurar os impactos em potencial das mudanças climáticas sobre os preços das suas ações na Bolsa de Valores. Em vários casos, estão perdendo oportunidades para criar uma vantagem competitiva e sair na frente da própria concorrência, pois ao adotar medidas que reduzam as emissões de gases de efeito estufa, um empresário passa a ter uma fonte de receita fixa e líquida no médio e longo prazo.
Nos Estados Unidos, a agência de proteção ambiental (EPA) inseriu em sua lista de poluidores os seis principais gases de efeito estufa (dióxido de carbono (CO2), methano (CH4), nitrido de óxido nitroso (N2O), hidrofluorocarbonetos (HFC), perfluorocarbonetos (PFCs) e hexafluoreto de enxofre (SF6)). E explicou que “estes resultados não vão impor qualquer tipo de requerimentos sobre a indústria e outras entidades”. No entanto, essa ação é um pré-requisito para finalizar a proposta das normas de emissão de gases com efeito estufa da EPA para veículos. É uma questão de tempo para legislações e regras semelhantes surgirem na América Latina e no Brasil.
O resultado desse cenário é uma leva de investidores institucionais e fundos internacionais, cuja visão holística de médio prazo está em busca de oportunidades concretas de investimentos pós COP15 e pós crise de crédito de 2008. No Brasil, em 2009, o Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE), da BMFBOVESPA, tinha 32 empresas listadas, com valor de mercado de R$ 927 bilhões – o que correspondia a cerca de 39% da capitalização da Bolsa. Atualmente, o Índice é composto por apenas 30 empresas e sofreu uma redução de valor de mercado para R$ 374,2 bilhões. A desaceleração pode ser explicada pelo relatório intitulado:”Gerenciando o inevitável: implicações de investimento de um clima em mudança”, produzido com base em uma pesquisa dos quatro maiores investidores institucionais do Reino Unido.
Esses investidores identificaram que a maioria das empresas de médio e pequeno porte estão se concentrando em acessar os riscos de eventos climáticos extremos, ao invés de examinar os custos em comparação às oportunidades de lucro relacionadas às mudanças climáticas.A grande parte do empresariado brasileiro ainda está cauteloso em relação a tais procedimentos de adesão aos mecanismos de quotas por causa da preocupação com os custos fixos iniciais. O relatório também ressalta o fato de que muitos investidores e empresas estão prestando atenção para os perigos dos riscos como inundações, o aumento das marés, eficiência energética, declínio da disponibilização de aquíferos subterrâneos de forma desproporcional.
É justamente a escassez de recursos que sempre foi capaz de criar as novas oportunidades de mercado, por meio de grandes mudanças criativas. Um gestor que conhece bem o leque de ativos e produtos da sua empresa tem de se engajar com consultores estratégicos para desenhar soluções e transformar os desafios do problema climático.
Os empresários precisam ter uma atenção maior para os cálculos que afetam as suas decisões de investimento no curto e médio prazo. Ao traçar os riscos reais que o impacto ambiental representa, um bom gestor analisa os riscos e custos fixos relacionados com a adaptação de cada unidade de produção. Em segundo lugar, encoraja os gerentes das suas cadeias de negócios a fazer o mesmo e cria mecanismos de incentivo para que os seus gestores de ativos passem a gerir esses riscos e custos fixos de forma mais eficaz buscando rebates e sistema de troca.
Cada gestor deve estar atento ao nível “micro”, envolvendo os fluxos financeiros e de bens capitais; aos modelos de negócios específicos no nível “meso”, e também as estratégias, visão e governança geral dos negócios no nível “macro”.Cabe aos investidores, desempenhar um papel mais ativo nos debates de política pública para o longo prazo sobre a adaptação aos efeitos das alterações climáticas. Assim, as sinergias entre o setor público, privado, investidores individuais e clientes não será alienada do curto para o longo prazo.
Em pleno século 21, no auge da era das tecnologias de comunicação e às margens de uma nova revolução de tecnologias limpas, o ser humano está finalmente cercado não só dos meios, como das informações mais sofisticadas, como também das soluções tecnológicas necessárias para a criação de novas ferramentas de mitigação e adaptação. O que falta é poder de execução e o uso do bom senso para que as empresas se adaptem a esse novo modelo de negócios de investimento ambiental integrado.
*Carolina Cabral Murphy é pesquisadora da Columbia University e fundadora da MicroEmpowering.Org com sede em Nova York (EUA)
e-mail: acm2134@columbia.edu
Sustentabilidade: uma idéia boa, mas não uma tarefa fácil por Rafael Morais Chiaravalloti*
A ambição de transformar uma empresa tradicional em uma organização sustentável é cada vez mais comum. De acordo com o getAbstract, principal serviço de resumos sobre livros técnicos recomendados para executivos, o termo sustentabilidade se tornou um dos temas mais focados na literatura de negócios. Entre os cerca de 5 mil títulos presentes no acervo, 460 volumes estão relacionados ao tema. A palavra sustentabilidade está no mesmo nível de procura que temas comuns como: “negociação”, “mercado de capitais”, “marketing” e “consultoria” (Smeraldi 2009). Entretanto, apesar de existir uma procura maior pelo tema, poucas organizações conseguem efetivamente ultrapassar a barreira entre a pretensão e a efetivação. Como diz a sabedoria popular: Falar é fácil, fazer não é tão simples.
Como um exemplo dessa situação, podemos citar “O Guia Exame de Sustentabilidade” (edição especial da revista Exame), o qual todo ano realiza uma competição para selecionar a empresa mais sustentável do país. A inscrição para o processo de seleção é feita de modo espontâneo, no entanto só participam do processo seletivo aquelas que responderem 122 perguntas sobre atividades relacionadas à sustentabilidade. As perguntas são, de certo modo, simples e estão pautadas sobre a existência de comitês, publicação de relatórios, metas para redução de CO2, remunerações relacionadas a metas ambientais e sociais etc. As empresas não precisam realizar as atividades, apenas responder as perguntas.
No guia de 2009, 210 empresas se inscreveram e apenas 141 (ou 67,1%) responderam todas as perguntas. Partindo do pressuposto, as 210 empresas inscritas, possivelmente, acreditavam que poderiam ser consideradas “a empresa sustentável do ano”, uma vez que a inscrição é feita de modo espontâneo. Também que esta competição seguiria um critério mais jornalístico e não seria tão rigorosa como outros indicadores de sustentabilidade. Pode-se concluir que mais de um terço das empresas que se consideravam sustentáveis, não conseguiram sequer participar por não responder perguntas simples sobre algumas atividades.
Entretanto, existe um pequeno grupo de organizações que tem empenhado um real esforço para se adequar a essa política e o mais importante; elas têm tido um grande sucesso econômico. Incorporando a sustentabilidade em uma política cotidiana, as questões ambientais e sociais começam a fazer parte do crescimento econômico, e não significam um problema para ele. Um exemplo de sucesso no Brasil é a Natura Cosméticos. A sua política de sustentabilidade envolve toda sua cadeia de produção, desde a coleta do produto na natureza para a fabricação do cosmético até o destino da embalagem. Apenas no ano de 2008, a empresa gerou um lucro de 2 bilhões de dólares, e foi considerada a Maior e Melhor Empresa do Brasil de 2009 pela mesma revista que realiza o Guia Exame de Sustentabilidade.
Em resumo, existe um grupo de organizações que tem gerado grande lucro com uma política sustentável, que tornou a idéia atraente aumentando a procura pelo tema. Contudo, como não é algo simples e muito menos rápido, poucos têm alcançado sucesso. Nas palavras do pesquisador Desta Mebratu (1998), muitas organizações que buscam uma política sustentável se baseiam em apenas argumentos vagos como mudança de ética e paradigma, e esquecem as ações realmente concretas.
* Rafael Morais Chiaravalloti é é discente da ESCAS – Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade e desenvolve trablhao de Conservação da Biodiversidade e elaboração de modelos de sustentabilidade na região do Pantanal (junto a Embrapa-Pantanal) e hoje curso mestrado na Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade; fruto da parceria entre IPE (Instituto de Pesquisas Ecológicas) e Natura Cosméticos.
Referências Bibliográficas:
Exame / Maiores e Melhores. 36ª edição dos Maiores e Melhores. Editora Abril. 2009
Guia Exame Sustentabilidade 2009. Os destaques da pesquisa. Editora Abril. 2009
Mebratu, D. Sustainability and Sustainble Development: Historical and Conceptual Review. Environmental Impact Asses Review, 18. 1998.
Smeraldi. O novo manual de negócios sustentáveis. São Paulo: Publifolha. 2009. 204p
As oportunidades de Negócio no Mercado de Carbono no Brasil por Laercio Bruno*
Hoje existem basicamente dois tipos de Mercado de Carbono: o Mercado Regulatório (compliance) e o Mercado Voluntário.
O Mercado Regulatório se traduz na existência da obrigatoriedade de atendimento às metas de redução dos gases que provocam o efeito estufa (GEE1). Os créditos de carbono são adquiridos para atingimento de metas de redução.
É regido por um conjunto de diretrizes e normas como, por exemplo, o Protocolo de Quioto, ou o ainda recente RGGIi (composto por 10 estados no nordeste dos EUA).
No Mercado Voluntário os compradores adquirem os créditos de carbono de acordo com sua conveniência: Responsabilidade Socioambiental, Posicionamento Competitivo/Marketing ou Investimento Financeiro (já prevendo um futuro “mercado regulador”).
Possui mecanismos de mercado que permitem a negociação de créditos de carbono para empresas e cidadãos. Um destes mecanismos é o OTC, um esquema mercantil que permite adquirir ou vender o Ativo e seus derivativos.
Diante deste cenário, existem no Brasil algumas oportunidades de negócio com o “ativo ambiental” carbono as quais podem ser aproveitadas, desde que haja o seu adequado mapeamento.
(A Bolsa de Chicago, embora seja expressiva no âmbito do Mercado Voluntario de Carbono não será contemplada nesta abordagem).
Serão contempladas três modalidades de operação: 1- Projetos do VCM; 2-Projetos REDD,REDD plus e Florestais e ; 3- Projetos de MDL, considerando-se: (i) o crescimento do mercado global, (ii) o potencial de desenvolvimento deste tipo de projetos no Brasil e, (iii) a posição do Brasil no âmbito do Protocolo de Quioto e frente à recente assumpção de metas voluntarias pelo governo.
As modalidades serão apresentadas de acordo com sua atratividade de Mercado.
1- Projetos do VCM: Alinhados com as diretrizes metodológicas do Protocolo de Quioto estes projetos devem reduzir efetivamente as emissões dos GEE e por se tratar de processos menos burocráticos, oferecem algumas vantagens:são mais rápidos (em até 6/8 meses um projeto pode ser registrado e comercializado) e mais baratos, custam menos da metade do valor transacional de um projeto de MDL.
Geram um ativo financeiro (ou ambiental) conhecido por VER2 (Verified Emission Reduced) ou VCUs; Verified Certification Units.
Hoje são encontrados nada menos que 17 diferentes padrões de certificação para projetos no VCM.
Alguns destes padrões agregam mais valor ao Ativo (VCU)3 por conta da atenção dada às externalidades do projeto no âmbito social. Isto é, além de reconhecer a condição de “adicionalidade” do projeto ele também avalia e valoriza os impactos sociais gerados imprimindo valor adicional ao Ativo.
Desta forma o VER passa a valer mais quando o projeto gerador implementa boas práticas de sustentabilidade contribuindo para a evolução socioambiental do entorno local e não somente apenas focado nas reduções das emissões de GEE.
VERs possuem liquidez imediata e a demanda tende a aumentar principalmente porque os EUA já vem discutindo há algum tempo se devem ou não devem aprovar uma legislação que controlará as emissões de carbono.
Caso isto aconteça, e tudo parece indicar que sim,adotarão uma política nacional (federal) de controle e redução dos GEE. O VER atuará como a unidade de medida para o abatimento e/ou compensação destas emissões Isto levará o mercado voluntário a crescer exponencialmente.
Respeitadas as grandes diferenças, haverá um mecanismo mercantil com similaridade ao Protocolo de Quioto (cap trade). Hoje o VER é comercializado, em média, entre 6 e 15 dólares por unidade. Alguns estudos apontam para até 40 U$ per VER, mas na prática no Brasil o valor comercializado tem girado ao redor de 8 U$ por unidade.
Este mercado tem tido forte crescimento. Em 2007 negociou cerca de U$ 263 milhões, em 2008 saltou para U$ 396 milhões em 2009 novamente apresentou expansão e em 2010 a tendência de crescimento se mantém. Pelas razões já mencionadas: (i)EUA e a lei federal; (ii) uma forte conscientização de parte da população que passa a exigir produtos com pegada ambiental mais leve.
Principais modalidades de projeto desenvolvidas e comercializadas no VCM (OTC4):
Geograficamente distribuídos da seguinte forma:
No Brasil os projetos realizados em sua maioria são aprovados dentro do esquema do VCS e carregam consigo uma validação adicional, seja “Carbono Social” ou “Gold Standard”, como forma de adicionar mais valor na venda final.
Uma experiência recente e bem sucedida apresenta uma empresa que desenvolve projetos no âmbito do VCM que levará á leilão aproximadamente 240 mil VCUs.
A empresa identificou um nicho de oportunidade: a indústria ceramista de médio e pequeno porte. A maioria de seus projetos consiste na utilização da metodologia (da UNFCCC) que preconiza a troca do tipo de combustível utilizado no processo produtivo: biomassa não renovável por biomassa renovável, a substituição de madeira nativa por palha de arroz, neste caso.
Existem ainda oportunidades na área Florestal, com reflorestamento de áreas degradadas/reconstrução de matas ciliares; de Tratamento de Efluentes Industriais, Aterros de pequeno e médio porte (via consorciamento de municípios),apenas para citar alguns exemplos.
Não há uma estimativa clara sobre o tamanho deste mercado no Brasil, mas é perceptível a existência de inúmeras oportunidades para desenvolvimento de projetos com margens bem atrativas.
2- Projetos de REDD,REDD plus e Florestais.
O conceito básico do REDD é manter a floresta em pé, evitando o desmatamento e a queimada (sem mencionar a subseqüente destruição de toda a biodiversidade do entorno) e remunerar o proprietário da floresta por esta atividade.
A floresta intacta mantém o carbono estocado em sua estrutura física; raízes, caule, copa. Este carbono estocado é passível de ser contabilizado e valorado, estabelecendo-se assim os créditos de carbono.
Em linhas gerais, desta forma REDD ajudaria a evitar a emissão dos GEE.
O desmatamento, em todo o mundo, hoje é responsável por 17,4% do total das emissões de GEE (maior que o setor de transporte).fonte:BBC Brasil
A tendência é de que o numero de projetos cresça substancialmente nos próximos anos, tanto no Brasil quanto em outros países com potencial similar. Inclusive como já mencionado por conta da possível tomada de posição dos EUA em estabelecer uma política interna em relação aos GEE e pela assunção de metas voluntárias por alguns países.
O tema REDD foi amplamente discutido na CoP 155, em Copenhagen, e talvez tenha sido aquele que melhor resultado obteve em termos pragmáticos.
Alguns países concordaram em aportar recursos financeiros.
A Noruega prevê o aporte de 1 bilhão de dólares e os EUA também 1 bilhão de dólares, mas escalonados ao longo de 3 anos.
REDD representa uma grande oportunidade de desenvolvimento de novos negócios também quando se considera todo o entorno do projeto; empresas especializadas, agentes financeiros, pequenos produtores, a cadeia de logística, mercado interno e exportação, entre outros atores.
O Estado do Mato Grosso está investindo fortemente no arcabouço jurídico-legal e simultaneamente produzindo incentivos para o estabelecimento de projetos de REDD. Veja o documento:
“DOCUMENTO-BASE PARA O DESENVOLVIMENTO DO
“PROGRAMA DE REDD DO ESTADO DE MATO GROSSO”;
link: http://www.icv.org.br/w/library/1315449609conceitoreddmt_dez091.pdf
Apenas no Brasil já são 17 projetos em andamento em fases distintas de desenvolvimento e operação.
Destes projetos, quinze estão na região amazônica e dois no Vale do Ribeira, na região sudeste. Por estados, a divisão é seis no Mato Grosso, cinco no Pará, quatro no estado do Amazonas e dois no Paraná
Ao todo, eles abrangem cerca de 46 milhões de hectares. Porém, segundo o MMA6, os projetos ainda são embrionários e estão distribuídos em propriedades públicas, privadas e terras indígenas. Apenas 12% deles estão implementados, sendo que 53% estão em fase de elaboração e os outros 35% ainda estão negociando créditos e captando recursos.
Para um maior detalhamento acesse o site http://g1.globo.com/FlashShow/0,,24585,00.swf
A reserva do Juma, no estado do Amazonas é o projeto pioneiro e emblemático.
Juntos, a rede de hotéis Marriot, Coca-cola e FAS – Fundação Amazonas Sustentável desenvolvem a iniciativa que cuida de manter a floresta em pé, ocupando-se inclusive dos aspectos socioambientais da área (590 mil ha) e seus habitantes.
Para maiores detalhes acesse:
Site: http://www.fas-amazonas.org/pt/secao/projeto-juma
Projetos-piloto de REDD já em operação
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Na Indonésia existem mais de 10 projetos, incluindo o Ulu Masen na província de Aceh, que é financiado parcialmente pelo banco americano Merrill Lynch.
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O Brasil tem vários projetos em andamento, incluindo o projeto da Reserva Juma no Estado do Amazonas.
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O governo da Noruega anunciou recentemente que vai pagar US$ 250 milhões à Guiana para que suas florestas tropicais sejam preservadas.
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O Nedbank, da Africa do Sul assinou MoU comprometendo-se a adquirir os créditos de carbono gerados pelo Projeto “Wildlife Works’ Kasigau Corridor Project” com o objetivo de posteriormente comercializá-los no mercado de carbono.Serão mais de 2,5 milhões de toneladas de CO2 geradas por um Projeto de REDD, no período de 2010 e 2026.
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O Banco Mundial está implementando projetos de REDD em 35 países.
Sobre REDD ainda há muito que se discutir, principalmente sobre as políticas internas para gestão e controle (nacionais e sub-nacionais); mas a partir do momento em que a demanda se apresentar mais concreta e firme, acenando com possibilidade de geração de volumosas divisas, estes tramites deverão fluir com extrema rapidez favorecendo o seu desenvolvimento.
É importante mencionar que diversas empresas de consultoria e ONGs já estão bem posicionadas, desenvolvendo os primeiros modelos de projetos, os quais apesar da indefinição presente, já delimitam as primeiras fronteiras possibilitando assim sua replicabilidade.
Quem sair na frente poderá conquistar a maior fatia deste mercado, que possui demanda reprimida. Hoje se encontra um “sem numero” de proprietários de terras á procura de saber como “levantar” um projeto de REDD e de outro lado, os investidores internacionais (grande maioria) á procura de um modelo de projeto que seja factível.
Ainda no âmbito de projetos florestais, vale apontar que:
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Os créditos de carbono florestais mais transacionados até a data foram os do tipo Aflorestamento / Projetos de Reflorestamento (afforestation/afforestation projects), com 63 por cento. Só no Estado do Tocantins esta modalidade de projeto crescerá 420% até 2011. Veja a matéria: http://sendosustentavel.blogspot.com/2010/02/reflorestamento-avanca-no-tocantins-com.html
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Seguido por Redd (17 por cento) e projetos de melhoria da gestão florestal em 13 por cento;
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O mercado de carbono de projetos florestais “está em uma posição incerta, mas à beira de um crescimento potencial enorme”, especialmente em Redd.
Fonte: Ecosystem Marketplace/PointtCarbon-jan/14/09
3- Projetos de MDLii: Atualmente discute-se qual será o futuro deste mercado. No ano de 2012 expira o Protocolo de Quioto nos moldes em que se encontra hoje.
O tema foi amplamente debatido durante a CoP 15 em Copenhagen, mas nenhuma conclusão foi ainda consensada.
Esta posição trouxe insegurança ao cenário de negócios com Carbono e reduzindo o valor dos ativos negociados.
O mercado Global de Carbono opera hoje acima dos 100 bilhões de dólares (U$) /ano e sinaliza que triplicará seu tamanho até o ano de 2014 por conta inclusive de novas modalidades de atividades de projetos como o CCS7– Captura e Estocagem de Carbono no subsolo.
No mercado global do MDL, o CER primário e o CER secundário representam juntos 22 bilhões de dólares/ano.
Veja o quadro abaixo:
Fonte: Source: Ecosystem Marketplace, New Carbon Finance.
Alguns projetos de MDL já foram comercializados com entrega para o pós-2012, numa tentativa de trazer segurança e continuidade às operações futuras. Algumas destas ações são fomentadas pelo Banco Mundial.
Apesar do enorme volume de recursos aplicado neste mercado ainda pairam muitas duvidas á respeito do futuro do Protocolo de Quioto e isto ainda afeta de forma negativa as operações de compra-e- venda.
Perda de Atratividade
Hoje os projetos de MDL perdem atratividade e espaço, levando o grande capital a optar por outras modalidades de projeto.
Por algumas razões:
(i) Futuro Incerto: a indefinição sobre o que virá após o ano de 2012, no que diz respeito á um mecanismo que substitua o atual acordo do Protocolo de Quioto, é um fator preponderante para o universo do MDL.
(ii) Janela de Tempo: o ano de 2012 está se aproximando e o tempo para se identificar, preparar, registrar um projeto de MDL é longo. Chega a 18/24 meses, podendo até ser superior.
Hoje existe o risco de se iniciar um projeto, mas seu trâmite burocrático pode levar tanto tempo que os resultados financeiros esperados com a comercialização de seus créditos de carbono podem torná-lo pouco atrativo e com alto risco, desestimulando assim a iniciativa.
(iii) Custo x Risco: ainda persiste o alto custo de transação do processo completo (do MDL) que pode chegar aos 150/200 mil dólares por projeto.
A questão do valor tornou-se, há tempos, um obstáculo para empresas de médio e pequeno porte.
Estruturar o projeto com recursos próprios e ao mesmo tempo correr os riscos característicos tem desmotivado alguns empresários.
A introdução de um agente financiador tem sido uma alternativa, mas muitos empreendedores já declinam por conta do custo do capital e pela possível futura divisão dos créditos de carbono originados. A maior parte fica sempre com os financiadores do capital. Sem falar do severo processo de due
dilligence iiijunto ao hospedeiro do projeto, que acaba por excluir ainda mais as poucas possibilidades encontradas.
(iv) Complexidade do processo: a questão da Adicionalidade Financeira dos projetos tem colocado à margem inúmeros possíveis projetos que reduziriam as
emissões de GEE e gerariam receitas adicionais.No entanto ao esbarrarem nas exigências , não seguem em frente no âmbito do MDL.
MDL programático.
Existe um projeto em conjunto no estado de Minas Gerais entre 40 usinas de cana, o banco alemão KFW e uma consultoria de mercado. No entanto, encontra-se ainda em fase de elaboração do PINiv não apresentando ainda resultado concreto no sentido de que vá efetivamente ser implementado.
Recentemente o Banco Mundial lançou uma carta-convite para que o MDL Programático fosse avaliado de forma que se entendesse quais as razões que “emperram” esta modalidade no Brasil.
(v) os chamados “low hanging fruits8” já foram quase todos realizados; aterros sanitários (os privados); co-geração de energia com bagaço de cana; substituição de matriz energética etc.
Além disso, as grandes empresas praticamente já desenvolveram seus projetos de MDL ou aguardam momentos de melhor definição para o fazer (…razões já mencionadas acima) .
Existe a promessa de sucesso da modalidade CCS (carbon capture and storage), mas ainda há muito para se aguardar. Esta atividade de projeto deve tomar corpo por volta de 2011.
A modalidade florestal continua a representar um quadro pouco atrativo para projetos de MDL. Apesar do grande potencial nacional. Aparentemente este potencial será aproveitado pelo mercado voluntário, a menos que as regras de Quioto mudem.
Neste momento, tornou-se complexo e mais arriscado desenvolver projetos de MDL no Brasil. A modalidade encontra-se cada vez mais limitada no sentido de representar oportunidade concreta de redução de GEE e ganhos marginais para seus realizadores.
* Laércio Bruno é consultor de empresas e sócio-diretor da consultoria de sustentabilidade empresarial e-Sense.
1 GEE: Gases que provocam o efeito estufa
2 VER: Verified Emissions Reduced/Emissões Reduzidas Verificadas
3 VCU: Voluntary Certificated Unit/Unidade Voluntaria Certificada. Também conhecido por VER.
4 OTC: Over the Count/Mercado de Balcão, para negociações de compra e venda de ativos
5 CoP 15: Conference Of Parts # 15/Conferencia das Partes n* 15
6 MMA: Ministério do Maio-Ambiente
7 CCS: Carbon Capture and Storage
8 “low hanging fruits”: frutos mais baixos para apanhar, expressão que indica “…os mais fáceis de fazer…”
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Ser ou não ser sustentável, eis a questão! por Ieda Novais*
A sociedade moderna está cada vez mais atenta à forma como as empresas realizam seus negócios. Quem estuda as tendências do mercado sabe que os consumidores aumentaram seus níveis de exigência no tocante à ética e transparência das empresas no relacionamento com seus stakeholders em questões de sustentabilidade e governança.
Não obstante o movimento nessa direção, muitos executivos permanecem apegados a uma visão de negócios que se limita à obtenção do lucro direto. Para eles, a necessidade de tornar o negócio sustentável é algo desvinculado de objetivos comerciais. O cuidado com o meio ambiente, por exemplo, é encarado como um elemento gerador de custos — e, como tal, constitui um empecilho à competitividade. Na opinião desses gestores, as “políticas verdes” da empresa podem entrar, quando muito, no âmbito do marketing ou das ações sociais.
Um artigo publicado recentemente pela revista da Universidade de Harvard traz as conclusões do professor C.K. Prahalad e dos consultores M.R. Rangaswami, e Ram Nidumolu. Eles estudaram 30 empresas de grande porte e constataram que a busca por soluções ambientalmente corretas estimula a inovação. Descobriram também que a produção verde minimiza custos: os investimentos necessários à implantação de métodos de produção mais limpa e de mecanismos voltados a economizar insumos são compensados pela consequente redução de gastos.
As inovações organizacionais e tecnológicas inerentes a uma empresa sustentável são, portanto, fontes de lucro e de receita. Ao repensar produtos, tecnologias, processos e modelos de negócio, o gestor adquire vantagem competitiva.
Prahalad, Rangaswami e Nidumolu apontaram os cinco passos que devem nortear as ações das empresas. São eles: ajustar-se à legislação vigente e adequar-se às normas e aos códigos de adesão facultativa, criados por entidades não governamentais e associações, vendo tais normas como uma orientação e não como um fator impeditivo; fazer com que a cadeia de valores da empresa seja sustentável; criar produtos e serviços sustentáveis; desenvolver modelos de negócios baseados na sustentabilidade; e ter ações proativas, antecipando-se às tendências e ajudando a construir o futuro. “Práticas inovadoras mudam os paradigmas existentes”, afirmam os autores.
A visão dos articulistas se alinha à teoria do triple bottom line, desenvolvida pelo economista inglês John Elkington. De acordo com essa abordagem, a viabilidade econômica, a consciência ambiental e a responsabilidade social compõem o tripé conceitual que serve de base a todas as práticas de desenvolvimento sustentável.
A caminhada rumo a um modelo produtivo que valorize o ser humano e o meio ambiente, sem abrir mão do lucro e da geração de riquezas, é irreversível. E o dilema hamletiano proposto no título deste artigo – ser ou não ser sustentável – deve ser substituído por outro tipo de atitude: a convicção de que devemos, sim, ser sustentáveis, pois somente as empresas que se alinharem aos novos paradigmas serão efetivamente bem-sucedidas.
* Ieda Novais é diretora corporativa da BDO, quinta maior empresa do mundo em auditoria, tax e advisory services.
Design 2010: quando o menos é mais por * Luciano Deos
O fortalecimento do design brasileiro e o seu papel cada vez mais estratégico posicionam o país como um potencial centro para a geração de novos negócios nesse segmento. Mesmo diante da crise mundial, o setor ganha relevância, credibilidade, consolida sua imagem internamente e se projeta no exterior, abrindo espaço e oportunidades de crescimento.
A criação de cursos acadêmicos e a inserção da categoria no Festival Internacional de Publicidade de Cannes, considerado o mais importante evento de comunicação do mundo, trazem amadurecimento e estimula a demanda interna e externa por design. Assim, nesse cenário otimista e de pós-crise, a previsão mais imediata para 2010 é o vínculo cada vez mais forte entre design e inovação, com uma relação de dependência recíproca e saudável.
O futuro transcende as tendências sempre associadas aos produtos, já que o design deve ser compreendido como uma disciplina transversal, que se relaciona diretamente a outros nichos, como moda, mobiliário e tecnologia. Diferentemente do que acontece em países como a Inglaterra e Coréia, que contam com políticas e suporte governamental, no Brasil é recente o apoio de organizações públicas e privadas para fomento e financiamento de projetos no setor. Felizmente, isso contribui para que o design passe a ser visto como uma valiosa ferramenta de desenvolvimento. E nesse contexto, a inovação é palavra de ordem.
Além da reflexão permanente para diagnosticar novos caminhos ao segmento, um dos desafios para os profissionais do setor será criar alternativas para gerar cada vez mais relevância às marcas. E a vinculação de estratégias de branding com design e inovação revela-se como a solução mais eficiente.
Vale dizer que inovação aplicada ao design nada tem haver com excessos ou exageros. Ao contrário. Neste momento, menos é mais! Durante a Revolução Industrial, período marcado por profundas mudanças na sociedade, os novos conceitos de moradia, transporte e produção simplesmente desprezaram o meio ambiente. Hoje, com a evolução da tecnologia e de modelo de produção, a sociedade se redesenha mais uma vez, só que atenta às questões ambientais. O ser humano precisa achar soluções simples para problemas complexos. Os recursos são finitos e, consequentemente, precisam ser preservados.
Tal realidade aplicada ao universo corporativo demonstra que diante desse panorama, as empresas que não forem capazes de se reinventar perderão oportunidades e serão superadas, classificadas como espécies inimigas do progresso. A lógica é mais ou menos essa: quem não investir em inovação e design, ficará um passo atrás. Mas, como quase tudo na vida, sempre há tempo para se repensar.
* Luciano Deos, diretor-presidente do GAD’ e presidente da Abedesign (Associação Brasileira das Empresas de Design).
A importância dos selos verdes por Newton Figueiredo*
De acordo com o levantamento 2009 Green Brands Global Survey, 73% dos brasileiros planejam aumentar seus gastos com produtos e serviços verdes e 28% deles (e apenas 8% dos britânicos) estão dispostos a gastar até 30% a mais em produtos e serviços verdes. Outra pesquisa identificou que 48% estariam dispostos a gastar 10% a mais para comprar produtos verdes.
Todas as pesquisas, ao final, indicam que os consumidores estão ávidos pelo tema e manifestam grande interesse de compra por produtos que contribuam para seus bolsos e para um mundo melhor. E por que o mercado de produtos sustentáveis ainda não disparou?
Na cabeça dos consumidores ainda existem barreiras para a aquisição de produtos sustentáveis, como dúvidas sobre a reputação e qualidade dos produtos e serviços verdes, além do desconhecimento dos critérios que caracterizariam os produtos como sustentáveis.
Uma maneira de as empresas começarem um processo de inovação via sustentabilidade é por meio da busca pela certificação de seus produtos e serviços. Os chamados selos verdes normalmente estabelecem exigências que promovem a diferenciação e a fácil identificação por parte dos consumidores.
Em meio a tantas informações e, muitas vezes, desinformação movida pela maquiagem verde, os selos e atestados são a garantia de que o produto passou por avaliações e está em conformidade com critérios e normas nacionais e internacionais. Contudo, deve-se estar alerta para os “pseudos” selos, sem consistência, apenas informativos e classificatórios que não avaliam as condições de salubridade, qualidade e desempenho e responsabilidade social e ambiental, entre outros itens.
Pesquisa da Accenture, Mudanças Climáticas para os Consumidores Finais, também aponta a preferência do consumidor por produtos e serviços sustentáveis, revelando que 98% dos brasileiros alegam que trocariam de fornecedor se um produto fosse certificado, com o objetivo de impactar menos as mudanças climáticas, ante 90% no mundo. Cabe o alerta de que a maioria das empresas ainda não percebeu como o conceito de sustentabilidade aplicado em sua gestão estratégica pode estimular a inovação e a diferenciação competitiva. Os consumidores não reconhecerão empresas sustentáveis se seus produtos não forem sustentáveis.
*Newton Figueiredo é fundador e presidente do Grupo SustentaX, que desenvolve, de forma integrada, o conceito de sustentabilidade ajudando as corporações a terem seus negócios mais competitivos e sustentáveis, identificando para os consumidores produtos e serviços sustentáveis e desenvolvendo projetos de sustentabilidade para empreendimentos imobiliários.
Energia nuclear é uma boa solução para o Brasil (Nordeste)? Por Heitor Scalambrini Costa *
Para responder a questão se “a energia nuclear é uma boa solução para o Brasil (Nordeste)?”, caberia discutir se essa alternativa de geração de energia elétrica é econômica, segura e ambientalmente limpa. Esse debate é que temos que fazer com a sociedade.
Minha resposta é fácil: NÃO, pelas seguintes razões:
Sobre a economicidade dessas usinas núcleo-elétricas, segundo os estudos da EPE (Empresa de Pesquisa Energética), o custo da eletricidade nuclear de Angra 3 ficará em torno de R$ 138/MWh, abaixo dos custos de termoelétricas a gás e carvão importado, e abaixo dos custos da eletricidade eólica (R$ 240) e solar (R$ 1.798). Ainda sobre Angra 3 a Eletronuclear informa que o empreendimento custará R$ 7,2 bilhões, sendo que 70% do financiamento virão de recursos do BNDES e fontes estatais, e os outros 30% de investidores internacionais.
As condições de financiamento são controversas, já que a Eletronuclear assumiu uma taxa de retorno para o investimento entre 8% e 10% – muito abaixo das praticadas pelo mercado, que variam de 12% a 18%. Somente uma taxa de retorno tão baixa pode viabilizar a tarifa de R$ 138 MW/h anunciada pelo governo federal para essa usina. A operação a baixas taxas de juros revela o subsídio estatal à construção de Angra 3. Estudos têm mostrado que somados juros e financiamento, Angra 3 não sairá por menos de R$ 9,5 bilhões, sem contar R$ 1,5 bilhão gastos até agora.Os subsídios governamentais ocultos no projeto dessa usina nuclear são perversos, porque serão disfarçados nas contas de luz. Se isso se verificar quem vai pagar a conta seremos nós os usuários, que já pagamos uma das mais altas tarifas de energia elétrica do mundo. Também é contestado o prazo de 66 meses estipulado pelo Ministério das Minas e Energia (MME) para a entrada em operação da usina. O governo fez uma estimativa de 30% de progresso já existente em sua construção. Ainda assim, os 70% restantes consumiriam em média pelo menos mais 96 meses, segundo estimativas.
A título de comparação de custos, a energia da hidrelétrica de Santo Antônio, foi negociada a uma tarifa de R$ 79/MWh, a hidrelétrica de Jirau, o preço foi de R$ 91/MWh (ambas no Rio Madeira), e o resultado do primeiro leilão de energia eólica no Brasil deixaram o MWh em torno de R$ 148. Bem mais reduzido que o apontado pela EPE para justificar a suposta viabilidade econômica da opção nuclear. Utilizando os R$ 7,2 bilhões alocados para Angra 3, seria possível construir um parque eólico com o dobro da capacidade da usina nuclear (1.350 MW) em apenas dois anos sem lixo radioativo ou risco de acidentes. E também, em termos prioritários de como utilizar esse “dinheirão”, dados do Procel (Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica), mostram que cada R$ 1 bilhão empregado em programas de eficiência energética resulta em uma economia na potência instalada de 7.400 MW, o equivalente a 5,5 vezes a potência de Angra 3 ou a metade de Itaipu. Logo, se uma usina nuclear custa mais de R$ 7 bilhões, pode-se concluir que cada R$ 1 bilhão investido em eficiência pode evitar investimentos de até R$ 40 bilhões para gerar a mesma quantidade de eletricidade nuclear. Portanto construir usinas nucleares no Brasil só será possível por meio de um verdadeiro saque aos cofres públicos. E, podemos considerar que a médio e longo prazo, o desvio de recursos públicos para a opção nuclear será um verdadeiro obstáculo ao estabelecimento de políticas de incentivo e promoção de energias renováveis no país.
Quanto à questão da segurança, apesar dos renovados esforços da indústria nuclear em apresentar-se como segura, acidentes em instalações nucleares em diversos países continuam a demonstrar que esta tecnologia é perigosa, oferecendo constantes riscos que podem trazer conseqüências catastróficas ao meio ambiente e à humanidade. O exemplo mais recente foi o acidente pós-terremoto em julho de 2007 (6,8 na escala Richter) na maior usina atômica do mundo, localizada em Kashiwazaki-Kariwa, no Japão, que provocou, além do vazamento para o mar, a emissão de gás radioativo para a atmosfera.
Não podemos nos esquecer dos incidentes graves com reatores: Chernobyl (Ucrânia) e Three Milles Island (EUA). O primeiro ocorreu em abril/1986, com a explosão de um dos reatores possibilitando que uma nuvem radioativa cobrisse todo o centro-sul europeu. E em Three Milles Island em março/1979, que provocou grande extensão de danos, mas sem vítima nem vazamento de radiação para o ambiente. Acidentes em uma usina nuclear tem baixa probabilidade de ocorrência, mas quando ocorrem são de extrema gravidade em termos tanto dos impactos sobre a saúde humana quanto ao meio ambiente.
Do ponto de vista ambiental, afirmar que as centrais nucleares são “limpas” quanto à emissão de gases estufa é uma desinformação imensa, sobre a tecnologia dessas centrais e sobre as condições em que funcionam as etapas da cadeia de obtenção e de processamento do combustível que alimenta as usinas. Em operação rotineira, as centrais nucleares pouco agridem o meio ambiente, porém expõem a sociedade ao risco de acidentes que liberam na biosfera produtos de fissão de alta atividade, que podem trazer conseqüências catastróficas. Embora pequeno tal risco, existe, e não pode ser negligenciado. Ademais, essas usinas não resolveram o problema dos rejeitos de alta atividade, cuja deposição final demanda pesados investimentos. Estima-se que estes rejeitos tenham que ficar isolados durante 10 mil anos.
Os defensores desta tecnologia não incorporam em seus cálculos de emissões de gases estufa, o processo completo da produção da eletricidade, o chamado ciclo do combustível nuclear. Pois, se consideramos a mineração do urânio, o transporte, o enriquecimento, a posterior desmontagem da central e o processamento e confinamento dos rejeitos radioativos, esta opção produz entre 30 e 60 gramas de CO2 por kWh gerado, segundo dados da Agência Internacional de Energia Atômica. O cálculo que faz o Oxford Research Group chega a 113 gramas de CO2 por kWh. Isso é aproximadamente o que produz uma central a gás. No caso do enriquecimento para obtenção do combustível nuclear, os minérios que contém o metal pesado Urânio são complicadíssimos de serem “beneficiados”, produzindo gases estufa em todas as etapas. Para obter o Urânio enriquecido que interessa aos reatores (3% enriquecido do isótopo 235), teríamos que rejeitar 970 kg de materiais para cada 30 kg de urânio físsil obtido. Para isso, se gasta uma enormidade de energia, inclusive na forma de vapor de água e de eletricidade produzidas em termoelétricas convencionais – grandes produtoras de CO2, de vapor de H2O e de gases nitrogenados -, e em hidroelétricas. Portanto, aqui também tem um mito, um afã de descartar, cortar e mostrar uma parcialidade da realidade desta energia. Também, o uso de água na tecnologia nuclear é alto. Então, a análise deve considerar a quantidade de energia que colocamos de antemão para produzir a energia elétrica. É importante não omitir esses dados no debate sobre as soluções ao desafio energético do país.
E aí cabe mais uma mentira: a de que hidroelétrica não emite gás estufa.
Basta pensar que as represas, sobretudo em regiões quentes e áridas ou semi-áridas evaporam muito, e de novo teremos o vapor H20, e também o gás metano emanado da decomposição de matéria orgânica, nas represas que cobriram muita vegetação e camada de húmus.
A insistência em considerar a eletricidade nuclear como uma “fonte limpa” é tão grave quanto considerar a hidroelétrica em geral como renovável e não “poluidora”.
Além das questões econômicas, de segurança e ambientais, existem questões éticas que não se deve deixar para as futuras gerações a resolução de problemas da época presente. E isso está ocorrendo com os depósitos (ainda relativamente pequenos) de rejeitos de alta radioatividade (lixo atômico) que permanecem em piscinas nas proximidades dos reatores. Além de que a construção de novas usinas nucleares é sempre uma porta aberta para a possibilidade de produzir artefatos nucleares para fins militares, e para o uso não pacífico dessa tecnologia.
O que a sociedade brasileira condena e não aceita mais é a falta de transparência sobre as escolha das opções energéticas, impedindo que tenha informações, e se manifeste, sobre como e onde seu dinheiro está sendo investido. Os custos econômicos, ambientais e sociais de usinas nucleares no Brasil (Nordeste) são altíssimos, e nada pode explicar tanta insistência com projetos tão desnecessários para o país e tão ineficazes em termos de geração de energia elétrica.
O debate energético atual se baseia em um modelo “ofertista” com recursos fósseis, com mega-hidroelétricas e com usinas nucleares. Ele precisa e deve ser substituído por um projeto diferente, contemporâneo dos desafios e possibilidades do século XXI, para que tenhamos segurança energética em longo prazo, com a diversificação e a complementaridade da matriz energética nacional, e com fontes renováveis de energia, levando assim em conta, um modelo de desenvolvimento sustentável.
* Heitor Scalambrini Costa é Graduado em Física pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP/SP), Mestrado em Ciências e Tecnologias Nucleares na Universidade Federal de Pernambuco e Doutorado em Energética na Universidade de Marselha/Comissariado de Energia Atômica-França.
