3º Microgerar vê poder transformador no acesso à energia
A energia, em todas as sua formas, tem um papel social transformador, principalmente em comunidades carentes e isoladas. No entanto, a formatação do sistema elétrico brasileiro, por mais interligado que ele seja, é ainda baseado em forças do mercado cuja lógica é buscar retorno no investimento como um negócio.
Este foi o tema que transversou todos os painéis da tarde do primeiro dia do 3º Microgerar.
“Existem cerca de 4 milhões de pessoas ainda não atendidas pela rede elétrica no Brasil”, lembrou Fábio Rosa, presidente da Renove que organizou o evento. “E estas pessoas se encontram na sua maior parte na região norte de difícil acesso”.
Chegar a estas comunidades é um desafio tanto para as empresas quanto para o governo, apesar de desenvolver o programa Luz Para Todos – que subsidia as empresas para fazer conexões em áreas rurais – na última década.
No entanto, complementou Rosa, a solução deve estar na oferta de solução alternativas que envolvam microgeração distribuída, não necessariamente conectadas à rede.
“Nossa proposta é distribuir kits de energia solar fotovoltaica para iluminação, carregamento de equipamentos como celulares e baterias”, explicou.
Segundo o site da Renove o preço de cada kit pode chegar a R$1500, e será proporcional ao consumo da residência. Segundo ele, sem esta alternativa dificilmente o governo atingirá a meta de eliminar a exclusão energética até 2015.
Financiar um projeto como este é possível e, no mesmo painel, o deputado federal Fernando Ferro (PT/PE), trouxe renovado fôlego ao projeto de lei 630/2993 que dá vantagens para geração distribuída com fontes renováveis e cria um fundo para financiar e substituir a Conta de Compensasão de Combustível (CCC) que financia a compra de diesel para gerar energia na região amazônica e que foi estimado em mais de R$5 bilhões em 2011.
RIO + 20
Para Ferro, quem deveria pagar a conta seria os produtores de combustíveis de origem fóssil, setor que se organizou e vem obstruindo a discussão do projeto desde 2009.
“Acho que é hora do congresso dar uma resposta e aprovar um projeto destes antes da Rio +20 “, disse o deputado.
No entanto, além da solar, outras soluções energéticas vêm surgindo, entre elas o os fogões ecoeficientes implementado pelo Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (IDER). Segundo o diretor da entidade, Jordieter Anhalt, já foram instalados 26.500 destes fogões no Ceará, substituindo fogões a lenha, reduzindo não só consumo de madeira, mas também as doenças respiratórias e fatalidade entre as mulheres no zona semiárida do nordeste. Segundo Anhalt, a demanda é por cerca de 2 milhões de unidades do fogões.
O projeto de doação dos equipamentos já resultou numa redução no desmatamento de que chegava a 80 mil toneladas por dia.
“Não consideramos isso uma doação, consideramos um investimento que gera bem estar, redução no desmatamento e serviços ambientais já que as famílias beneficiadas começam a cuidar melhor do meio ambiente, pois recebem educação ambiental”, explicou Anhalt.
Do outro lado da energia – a de sua produção – o Ministério do Desenvolvimento Agrário olha o programa biodiesel social como uma oportunidade para tirar as famílias da região agreste do nordeste da pobreza. São cerca 107 mil famílias beneficiadas no país, a maioria (60 mil) é localizada no sul do país, de onde fornecem soja para os produtores de biodiesel por meio de leilões organizados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Mas cerca de 37 mil famílias no nordeste são beneficiadas já que o programa exige que 30% da compra venha da região. Destas, 43% tem renda anual de R$6 mil.
“Estas famílias cultivam mamona durante séculos, mas têm dificuldade de acesso à tecnologia”, explicou André Machado coordenador geral de biocombustíveis do ministério.
Para ele, será preciso agora investir em capacitação técnica para as famílias poderem formar cooperativas e gerir os negócios, para o qual há um orçamento de R$90 milhões, que inclui outras áreas além da produção do biocombustível. Além disso o governo está estudando projetos de biorrefinarias para aproveitar melhor a biomassa por meio da produção de energia e combustíveis, além de químicos, remédios e até cosméticos.
ASSISTÊNCIA TÉCNICA
No entanto, projetos com comunidades carentes necessitam de um melhor grau de assistência técnica, conforme revelou a pesquisadora da Associação Pró Energias Renováveis (Aproer) , Joana D’Arc Luz Tiago.
Ela fez um levantamento dos projetos de microgeração de energia na região norte e identificou que dos 1400 projetos, cerca de 400 eram de energias renováveis. Mas, destes, apenas 12 foram implantados e só seis estavam em funcionamento algum tempo depois.
Além do apoio técnico e da capacitação, houve problemas de elaboração do projeto como uso de fontes não adequadas para a região ou apostas em fontes que não se realizaram.
“Os projetos são econômica e socialmente viáveis, mas tem que haver apoio constante e capacitação das comunidades”, concluiu.
Um dos seis projetos na região ainda em funcionamento foi o da Indalma de microgeração hídrica.
Desenvolvido por um empreendedor da região de Santarém no Pará, o turbina hídrica atende aos requisitos da região: requer baixa queda de água, é robusta e de simples manutenção.
“São 60 unidades instaladas na região”, explicou Rudi van Els, pesquisador da UnB.
A Indalma começou produzindo unidades de 5kW e hoje tem instalado conjuntos de unidades que geram até 200kW. A maior parte das vendas do equipamento é para fazendeiro locais que investem R$10 mil ou mais. Mas a Indalma também inovou no modelo de venda para comunidades locais, permitindo que pagassem parceladamente com a geração de renda por meio de algum negócio criado com a vinda da energia.
“Chegou a uma tal escala que precisa de investimento para deixar de ser um negócio de fundo de quintal”, explicou van Els. “Este equipamento tem um potencial enorme não só no Brasil”.
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Referência (ABNT):
Spatuzza A. 3º Microgerar vê poder transformador no acesso à energia, 23 mai. 2012. Disponível em: <http://revistasustentabilidade.com.br/3o-microgerar-discute-poder-transformador-do-acesso-a-energia/>. Acesso em: 25 mai. 2013.



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